Os primeiros minutos de um dia que amanheceu-me
Ainda com as pupilas dilatadas, e com a mente sofrendo de não dormir, sentei-me na sacada para assistir o dia. Arrancava a sujeira das unhas como se tirasse os pedaços que ainda sobravam de mim. Atirava a sujeira, os meus pedaços, para o dia branco, e lindo, que começava. A moça do apartamento em frente, em sua irrealidade, abriu as cortinas. Para isso escolheu um vestido cáqui em corte reto. As rodas e os pés que passavam anunciavam a vida a começar no dia. E eu, naquele momento, felizmente ficava, enquanto os outros simplesmente iam, iam, iam... E pensar que eu era eles todos os dias, o tempo inteiro. E nem sabia por quê, nem por que ia, menos ainda por que ficava, naquele dia.
Da sacada olhava o mundo que se mexia, intensamente, fantasmagoricamente, impuro e duro como pedra, invasivo em sua frieza morna, a arrancar das almas tudo que de valioso pensavam ter. E as almas presas ora nos carros, ora nos prédios, ora nas casas, nos bares. Quadrados, retângulos sufocando as vidas, quase apagadas, quase nada. Sobrava de tudo aquilo, uma menina em pânico na sacada (mais um quadradinho que dá para um pouquinho de luz e de sol). Em pânico a menina estava, mas feliz porque acima estava, na sacada, em alma pura e solta naquele dia que lhe nascia sensorialmente quase insuportável.
O que não sabia era se seria capaz de ser alma de novo naquela temperatura-atmosfera-mundo necessariamente eficaz, naquela vida ali na calçada, na rua, que parece que não pára nunca! Como aquilo tudo não parava? Aquele som ensurdecedor, aquele movimento todo, atordoante! Para onde iam? Para onde íamos todos?
E que diferença essa que fazia de quem olhava da sacada alguém tão distante da moça que há pouco abriu as cortinas? Parecia um limite maior do que aqueles 40, 50 metros que as separavam. Limite que eu, menina, não seria capaz de alcançar, mesmo naquele momento em que os sentidos pareciam tão expandidos e ilimitáveis...
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
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